A Ascensão e Queda do SubAstor


Em outubro de 2010, e eu lembro-me como se fosse ontem, estava com dois amigos e fomos para um bar "famoso" na Vila Madalena por indicação das meninas da nossa sala. O lugar estava completamente lotado, preço alto, cadeiras ruins de botecos ruins. Cheio de gente falando alto, e fazendo arruaça enquanto tiravam fotos para postarem no Twitter ou atualizarem suas fotinhos de BBM. Então saímos, andamos alguns metros e demos de cara com o Astor. Parecia um bar respeitável e estava cheio, mas não lotado. Eu era um aluno de colegial ainda e nunca tinha ouvido falar nesse lugar. Ao chegar precisava ir ao toilete. O garçom indicou o caminho para o subsolo. Inesperadamente dei de cara uma cortina de veludo de cor vinho. O bar tinha um bar secreto dentro dele! Que classe.

Assim que entrei soube que aquele bar seria meu parceiro por anos. Não havia ninguém da minha idade, só gente com no mínimo 10 anos a mais. Forte indicador de qualidade. Música excelente. Preço alto, mas não tanto. Perto de casa. Secreto. Clássico. Drinks impecáveis. Aquilo era o paraíso.

Esse lugar fez a meu nome. Eu era menor de idade, mas como era o único, ninguém se importava ou pedia documentos. A chance de ter uma operação policial ali era nula. Além do mais eu costumava frequentar de terça, quarta ou quinta. Nunca sextas, sábados ou domingos, quando o bar enchia e possuía um publico mais competitivo. Era bom em todos os sentidos. Todas as meninas bonitas e populares da minha idade queriam sair com as amigas, verem e ser vistas durante o final de semana. Elas ansiavam por isso. Mas de terça-feira elas nunca tinham nada, estavam sempre deprimidas, se sentindo presas e aceitavam meus convites quase que sem esforço.

Eu pegava um táxi, buscava elas e ia pro bar. Descia as escadas. Era como um script. Assim que passava a cortina de veludo todas elas reagiam da mesma forma, faziam a mesma cara, falavam as mesmas coisas. Dava pra ver meu valor social se elevando subitamente. Eu sempre sentava nas poltronas vermelhas do canto (melhor acústica) e gesticulava para um garçom, claro que mais tarde eles acabaram entrando no meu payroll.

- Boa noite senhor, o que vai pedir está noite?
- Já sabe o que vai querer Marcela?
- Quais cervejas voc...
- Não. Faz o seguinte meu caro. Me traga um Watermellon Martini e pra moça um Russian Spring Punch.
- Sim senhor, mais alguma coisa?
- Batido, não mexido. Vocês ainda tem aquele drink de beterraba? Beet by Bit?
- Sim senhor.
- Okay, pode trazer um desses pra nós também. Obrigado.

O garçom educadamente se retirava.

- Você gosta de apostas?
- Depende.
- Vamos fazer uma. Se gostar do drink que eu pedi pra você, vai ter que me dar o que eu escolher. Se não gostar, vale o mesmo pra mim.

As respostas variavam. A aceitação não. 100%. Todas gostavam dos drinks. Ficavam encantadas com o de beterraba.

- Tá legal, o que você quer de mim?
- Hoje o bar é por sua conta. (Eu respondia em tom sério, enquanto saboreava meu esplendido Watermellon Martini).

Outro drink que eu gostava era The Vesper, criado pelo James Bond durante o filme Casino Royale. Sempre preparo em casa: 3 medidas de Gordon's, uma de vodka e meia de Kina Lillet (ganhei de um amigo que trouxe de fora) batida com bastante gelo até que suas mãos esfriem, adicionada de uma larga rodela fina de casca de limão. Clássico. No SubAstor ele tinha algumas alterações pra dar o toque da casa. Independente de tudo, ganhando ou perdendo a aposta, eu sempre optava por terminar pagando a conta. Perto de 80 reais com taxas de serviço.

O choque provocado pela sintonia dos elementos: drinks alcoólicos, ambiente perfeito, e boa companhia deixavam as meninas em um estado de êxtase que se mantinha por horas. Como meu apartamento era perto elas sempre iam comigo para "buscar o número de um taxista de confiança e não ficarem aguardando no frio". Salvo raríssimas exceções, a noite sempre se finalizava com a chave mestra abrindo mais uma fechadura. Não tinha competidores à minha altura, meus colegas ainda gastavam R$ 130 em balada e se gabavam por terem pego 5 ou mais mulheres de beleza discutível. Eles não tinham ideia do que era carpe noctem. De fato, burgueses sempre estão anos luz à frente de todos...

As coisas corriam muito bem. Dias de glória. Até que o pior aconteceu...


Durou até de mais. Eu não ia conseguir esconder aquele lugar para sempre mesmo.
Semana passada fiz uma visita para me despedir e bem como eu esperava: os drinks tiveram seus preços aumentados, a qualidade caiu, os garçons que me reconheceram fizeram uma cara de vergonha e de desapontamento com toda a situação. Todos sabem que aquele lugar não era para ser exposto às massas, mas era tarde demais. Foi o mesmo destino do Please Don't Talk, posso imaginar a dor dos burgueses nova-iorquinos. Mais uma vez nos lembramos de um implacável fato da vida: todas as boas coisas chegam a um fim.

Claro que ainda tenho uma última carta na manga, O Frigobar, mas a qualidade não é a mesma. Som fraco. É mais fácil se conseguir uma reserva no Dórsia do que lá. Os drinks são mais ou menos. Além de ser mais longes do meu apartamento e cheio de gente cool querendo tirar fotos pro Instagram. Hell. Vou ver se consigo colocar o gerente deles no payroll para tentar ocupar as minha terças-feiras novamente. Só espero que os speakeasy não se torne popular entre os gourmetzinhos que acham que tem algo de burguês.

Descanse em paz SubAstor.

O resto é com vocês...
Bons ganhos e um grande abraçoo!

Comentários

  1. "SubAstor on tuesday night? How did he swing that?"
    "I think he's lying."

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  2. Esse negócio de se achar burguês provavelmente é a coisa mais idiota em você. Aff.

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  3. Ótimo texto b.i
    Você é meio doido, mas aquela aula sobre suborno tem mudado minha vida
    Continue postando...

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    Respostas
    1. Meu Deus! Aula de Suborno! Ao invés de usar a internet para se tornar uma pessoa melhor, fica usando para virar mal caráter!

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    2. O importante é se dar bem, ainda mais nesse chiqueiro subdesenvolvido que vivemos. Ele não tá roubando ninguém, não tá matando, então foda-se.

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  4. Haha.

    Mais um belissimo post.

    Muito interessante.

    Abraçao

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  5. Disse tudo: Tudo o que bom tem seu fim! Porém, outros virão.

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  6. Que bosta de historinha
    tosca...kkkk
    Pode fechar o blog agora...

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  7. O critiquem como quiserem, mas sua forma de escrita, seu ponto de vista das coisas e os assuntos abordados são verdadeiros tesouros na mão das pessoas que conseguem absorver e interpretar algo prestativo nessa internet.
    Mais um excelentíssimo post em um blog fantástico!

    Post it and don't worry about nothing! #WeAreBourgeois!

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  8. Sempre gira em torno de mulheres !! não poderia ser amigos?

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  9. Ótimo bar. Em sua época áurea foi algo realmente inovador. Mas nunca fui de cocktails, então ficava no whisky mesmo. Fui algumas vezes em minha época de solteiro. O problema era a garota tomar um mojito atrás do outro a uns 20 reais cada. No final a conta ficava um pouco salgada mas o resultado compensava. As coisas boas tem seu preço. O Astor também era legal para um chopp e comer uma comidinha de boteco. Abraço

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  10. B.I

    Valeu por compartilhar conosco mais essa mensagem.

    abs, você é o cara!

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  11. Gostei do post, já fui nesse bar este ano mesmo, no 1o semestre e achei legal . Bem bonito, ele não vai fechar né ? O BI não gostou do fato de ter se tornado mais conhecido, ah e o seu estilo de escrita é ótimo . Como falaram acima esse blog passa um conhecimento valioso pra quem conseguir absorver

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