A Guerra das Classes


“There’s class warfare, all right, but it’s my class, the rich class, that’s making war, and we’re winning.”
― Warren Buffett
Em qualquer dado momento, as massas estarão rasgando seus egos por meio de disputas externas. Estou falando de times de futebol, "o sul é meu país", roqueiros vs pagodeiros, disputas religiosas, direita contra esquerda, PC master race vs consoleiros, Keynes vs Hayek. Eu poderia passar o dia todo nomeando temas comuns de disputa, eles estão por todos os lados e sempre estarão. Se um dia forem resolvidos, outros surgiram. De fato, é o que tem acontecido em tempo real: Bolsonaro venceu o PT, e com a calmaria surgiram incontáveis guerras internas, sabiamente classificadas como "fogo amigo".

Diante de tanta polarização, é fácil nos vermos obrigados a escolher um dos lados. Eu me recuso a cair nessa armadilha barata. Nós, burgueses de bem, devemos sempre que possível tomar vantagem sobre os dois lados. A diversidade e a polarização, que enfraquecem-se mutuamente, nos fortalece. Não me levem a mal, não estou desejando o pior para ninguém, mas tenha em mente que fatores macroambientais são incontroláveis. Não é nosso trabalho ser um herói de um dos lados, muito menos dos dois. Nossas energias devem ser voltadas para calcular o risco/retorno e tomar a melhor decisão pensando em nós mesmos, e quando digo nós mesmos, estou falando dos interesses coletivos da nossa própria classe.

Em defesa de Nicolás Maduro

Uma das causas dessa polarização é a falta de capacidade das massas de projetar realidades paralelas diferentes. Vamos pegar o exemplo da Venezuela. Eu admito que sinto dó de tudo o que tem acontecido com a população local, cortes de energia e fome, ninguém merece isso, mas não devemos esquecer que foram eles, o povo, que lutou por isso. A elite, isto é, os burgueses locais, lucraram forte em cima dessa decisão. Hoje vivem aqui na España, no melhor bairro de Madrid que apelidaram de "litte Venezuela". Enquanto sequer os espanhóis possuem recursos para comprar imóveis neste local, venezuelanos endinheirados apareceram comprando edifícios inteiros, fazendo reformas inimagináveis, levando os preços a níveis recordes.


Com alta frequência, vejo brasileiros lamentando a situação da Venezuela e aproveitando para culpar o governo vizinho. Sequer passa pela cabeça deles que, com apenas 20 mil dólares, poderiam adquirir um belo apartamento de 100m² e acordar transando com uma bela venezuelana magrinha de genética superior. O governo de Maduro é o melhor amigo dos burgueses brasileiros e devemos respeitá-lo por isso. Do outro lado, tentem colocar sob perspectiva qual seria a situação se a Venezuela fosse como Singapura, e o Brasil exatamente como é. Tente visualizar uma cidade futurística com belos arranha-céus, sem favela alguma, pessoas bem vestidas, felizes e atraentes transitando por bairros arborizados, com uma feição calma diante do pleno emprego. Tenho certeza absoluta que eles construiriam um grande muro para tentar barrar a imigração de brasileiros, nos tratariam mal (parecido com o modo como os argentinos costumavam nos tratar antes da bela crise que os atingiu), explorariam todas as oportunidades possíveis e, de quebra, se sentiriam superiores enquanto consumiriam "nossas" mais belas mulheres. Não há nada de errado nisso. Estariam fazendo o que deve ser feito, beneficiando-se do resultado final das lutas de classe locais.

Independente de ser arriscado investir na Venezuela neste momento, não podemos deixar que nossos instintos, posicionamentos político, ou ego nos cegue diante de oportunidades. Este exemplo foi extremo, mas mesmo diante de pequenos conflitos diários é possível tomar vantagem. Um burguês de bem dono de estúdio pode apostar suas fichas em um rapper pobre que fala mal da elite e extrair bons ganhos da situação. Um burguês investidor líquido, sem nada em seu nome, pode se aproveitar de projetos sociais criados para amenizar uma guerra de classes, como "Minha Casa, Minha Vida", para adquirir imóveis subsidiados e convertê-los em fonte de renda passiva. Ou, até mesmo, conquistar pontos sociais com um grupo do qual jamais desenvolveria afinidade caso deixasse seu ego tomar conta de suas palavras.  Seja líquido, este é o melhor jeito de se levar a vida.

Movimentando as Massas

Eu admito que nunca me senti parte de nada. Nunca consegui me identificar com nenhuma torcida de time de futebol, nem com nenhum partido político. Talvez, a única exceção seja o Donald Trump, um burguês de bem, fico feliz por ele ter conquistado a Casa Branca, mas ainda assim jamais expressaria esse tipo de opinião em público. Metade dos meus familiares são petistas e acho que eles devem acreditar que eu sou petista roxo. Outra metade é pró-bolsonaro, são conservadores, e acho que eles devem achar que sou conservador de extrema direita. Essa posição é agradável e me faz aprender muito com os dois lados. Foi graças a essa experiencia que me tornei diplomático e aprendi a movimentar as massas. Posso até fazer artigos sobre isso, mas vocês estarão melhores se lerem três importantes livros da Biblioteca do Burguês:
  • Public Opinion - Walter Lippmann
  • Propaganda- Edward Bernays
  • Rules for Radicals - Saul Alinsky
Adianto que é uma energia enorme, e muitas vezes os resultados são incontroláveis e imprevisíveis. Mas, se for de extrema importância, você pode sim estimular uma nova corrente de pensamento das massas para seu próprio ganho político. Agora, imagino que vocês devem estar se perguntando:
- O Burguês disse que é meu dever tomar vantagem das situações criadas pelas guerras entre classes, mas e se eu escolher me abster de tudo isso?
Infelizmente meu caro, é sempre preferível que você, um burguês de bem, tome vantagem. Caso contrário, outros grupos tomarão, e não será nada bonito. Além do mais, tenha em mente que se isentar não é livre de riscos, os "isentões" vem recebendo ataques crescentes, portanto você merece receber o retorno sobre os riscos assumidos. Não se esqueça também que devemos nos manter nessa posição apenas até que o risco/retorno de um dos lados supere o risco/retorno de nossa abordagem atual.

Preparado Para o Pior

Um benefício inesperado de não assumir lados, está no fato de você se tornar menos apegado às coisas e, por consequência, mais líquido. Há meros vinte anos atrás, a Cataluña fazia parte da España e não havia nada para se preocupar. Muitas famílias de outras regiões se mudaram para cá e construíram suas vidas. Contudo, em curto tempo, forças passaram a agir. Partidos políticos nasceram, movimentos sociais se instauraram. Tudo mudou. A Cataluña, que era orgulhosamente espanhola, adotou sua língua própria em escolas e universidades. Reescreveu sua história por meio do sistema de educação público. Agora é altamente provável que, em poucos anos, ela se independentize e forme um dos governos mais esquerdistas de toda a Europa.

Eu não ligo de pegar minhas coisas e me realocar, ou aproveitar uma redução drástica nos preços de imóveis caso isso aconteça, mas penso na dor que deve ser para os pobres habitantes locais que moram lá e não desejam isso. Estou falando de tolas pessoas que orgulhosamente assumiram o melhor de uma região, que trabalharam ali durante toda sua vida, e agora já não são bem recebidas. Esta triste história me lembra uma frase que acredito ser de Nelson Rockefeller:
"O segredo do sucesso é não possuir nada, mas controlar tudo."
Devemos ser estoicos, sempre preparados para o pior, e extrair o melhor dele. Este é o melhor jeito de levar a vida. Agora, lembre-se: Nós estamos vencendo. E vamos continuar vencendo. E se for para tomar uma posição, que seja a de respeitar e admirar A Guerra das Classes.

O resto é com vocês...
Bons ganhos e um grande abraçoo!

Comentários

  1. Mais um post que canoniza este blog como o mais maquiavélico do Brasil!

    O curioso é que essa linha de raciocínio está na cabeça da manada só que parcialmente, pois na prática eles agem sem enxergar a figura maior. Procuram tomar vantagem na guerra de classes e não por conta da guerra de classes.
    https://youtu.be/J6brObB-3Ow

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    1. Clássico.

      Admito que gostaria de ter uma Biblioteca de Propagandas do Burguês.

      Essa aí certamente faria parte.

      Bons ganhos e um grande abraçoo!

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  2. Excelente texto. Na ultima eleição experimentei isso, Bolsonaro vs Haddad, sopesei as opções, se Bolsonaro vence-se a tendencia da Bolsa de valores era de subida, do contrário a previsão era de aumento do valor do dólar e aumento no custo de importações.

    Apostei no Bolsonaro em uma empresa mais conservadora CMIG4 por ser do setor elétrico e pagar bons dividendos, tiver um ganho de 106% nos poucos meses até a conclusão da eleição. Poderia ter diversificado para reduzir possíveis perdas, mas como todo burguês deve fazer as vezes aumentei os riscos para potencializar os ganhos.

    Claro que isso foi feito a base de estudos e pesquisas eleitorais, apesar de muitas fraudes a tendência era para o candidato de direita. Assim fui recompensado com um belíssimo ganho.

    Abraços e bons ganhos.

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  3. Burguês, entendi perfeitamente sua colocação de como aproveitar a situação da Venezuela (mesmo pq isso acontece no mundo todo, burgueses, ou ao menos moradores de um país menos fodido fazer a festa em um lugar mais pobre).

    Porém, só pra provocar mesmo, lembremos que na Venezuela (que vc mesmo citou como um exemplo extremo) vc pode pegar SARNA e outras doenças primitivas que voltaram no países pela total ausência de saneamento/higiene pública com a crise ferrada que está por lá. Sem contar os assaltos e crimes violentos, de um povo que não rouba pra ostentar como os traficantes brasileiros, mas sim para a própria sobrevivência em muitos casos.

    Agora imagina investir uma grana lá e na outra semana a Guarda Nacional Bolivariana invadir sua casa e tomar tudo que quiserem? Tudo isso com total incentivo do Estado, já que vc será um "burguês imperialista tentando se aproveitar do pobre povo venezuelano".

    Em outro caso, os próprios populares podem se revoltar na rua com vc desfilando numa boa de carro, enquanto os mesmos se degladiam por um resto de comida. Daí pra revolta virar contra vc em forma de paus e pedras é um pulo. Algum deles, mais exaltado, pode sugerir de que se trata de um agente do governo Maduro, que está com o bolso cheio diante de tanta miséria, aí...

    Acho que, nesse momento, o ideal seria curtir a Argentina: cenário ideal com uma crise econômica violenta, mas o Estado (ainda) não dá tiro de fuzil na própria população no meio da rua. Lá, a guerra civil venezuelana ainda não começou.

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    1. Você subestima demais as conexões internacionais do Burguês Inglório.

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  4. Post extremamente redpill, burguês. Explodi minha cabeça no vídeo dos venezuelanos na España. Se você me permite perguntar, qual a sua leitura do movimento separatista do País Basco?

    Excelente post, como sempre.

    Bons ganhos e forte abraço.

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  5. Bom texto. Faz pensar no 'Além do Bem e do Mal', de NIetzsche. Mas o exemplo da Venezuela realmente é muito extremo. A relação risco / retorno tende a não compensar. Em qualquer situação, sempre há quem consiga estar por cima. Pensar que isso se deve ao mérito pessoal é tentador, mas não sou tão otimista -

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    1. Não acho tão extremo assim. A vida de 5 milhões de burgueses na Venezuela continua praticamente a mesma.
      https://www.bbc.com/portuguese/internacional-36733066

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    2. Anon, vc postou um link de 2016. De lá pra cá piorou e MUITO, inclusive pros venezuelanos mais abastados.

      Veja essa matéria de como está o Country Club de Caracas, o clube dos ricaços do país. Matéria atualizadíssima de 20/11/2019:

      https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/11/20/crise-na-venezuela-a-vida-no-country-club-de-caracas-oasis-de-riqueza-no-pais.ghtml

      Agora só frequentam o clube os mais velhos e crianças. Todos os jovens aproveitaram o dinheiro dos país pra zarparem correndo pra outros países. Quando vc está rodeado de merda, uma hora ela atinge vc, não tem jeito.

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  6. Que paulada esse texto! O blog está voltando com força total!

    Muito obrigado por voltar Burguês, escreva mais!

    - Mark

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  7. excelente texto
    boa estratégia

    abs!

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  8. Olá, Burguês!

    Excelente estratégia.

    Vale a pena lembrar que uma estratégia parecida - ficar "de lado" e neutro nas guerras e suprir ambos os lados - foi o que levou a Suíça a se consolidar como o banco da Europa e do mundo, num lugar onde quase não se pode plantar nada e nem riquezas minerais existem.

    Faz a gente pensar um pouco sobre o efeito da escassez sobre a gente.

    Abraços e seguimos em frente!

    Pinguim Investidor
    https://pinguiminvestidor.com

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  9. Meu caro Burgues,

    Vc está se superando.

    Se uma das classes ler seu artigo vai achar o texto um tanto cruel.

    Mas até a boa vida é cruel com quem a negligencia.

    ótimo texto

    abs e bons investimentos

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  10. "O segredo do sucesso é não possuir nada, mas controlar tudo."
    Nunca tinha ouvido, mas faz todo sentido !!

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  11. Certa vez li em algum lugar que nos USA teve uma plantation "modelo" tamanho controle que o Senhor tinha de seus escravos. Indagado a respeito ele disse que era fácil. Mantinha o novo brigando com o velho, o homem com a mulher, o preto com o mulato e por ai vai. Aí não brigavam com ele.
    Classes existem pois existem diferenças entre pessoas desde o nível genético, fora a sorte... Até no Japão tem vagabundos e tem karochis.
    Mas isso se tornar um problema e uma guerra, é porque é estimulado pela esquerda e pelos amantes do estado inchado, que posam de mediadores pra cobrar pedágio. Os pobres caem nessa porque são mais burros e educados quase exclusivamente pela Mídia e pela escola.

    Que ótimo blog o sr. Construiu, Burguês, sem dúvidas o melhor destas bandas.

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    1. Enquanto isso a grande pauta social é a desigualdade, quando na verdade deveríamos discutir como aumentar a mobilidade social. Só que a resposta pra isso parece muito difícil pra maioria: livre capitalismo.

      Aliás Burguês como está a vida? Estou de saco cheio do socialismo em Portugal. Vejo médicos vestidos como eu me vestia quando criança, como mendigo, com aquelas casacos "parcá" de 10 euros. Pensando em mudar.

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